3.10.04

deslizes 1 e 2

(deslizes: esboços de qualquer coisa na primeira pessoa, derivados de ‘Azul a Cores’, a minha Urgência para a Cláudia Jardim e o Tiago Rodrigues.)

deslize 1: oco
Só falávamos da sala, de como íamos mudar os móveis de lugar, o sofá fica melhor naquele canto, e o candeeiro?, a estante se calhar tem mesmo de ficar aqui. Um dia saí mais cedo do trabalho e fiz-te a surpresa, chegaste e a sala pareceu melhor assim. Sentei-me no sofá, tu no canto onde o sofá costumava estar, e pediste-me por favor, volta a pôr tudo como estava, sabias que, arrumada a sala, já não tinhamos do que falar.

deslize 2: par
Não me dava bem com químicos, por isso metia os dedos nas fichas de electricidade, um ou dois esticões e o dia passava-se. Para voltar a bater, o coração tinha de parar, era a melhor parte, o glóbulo vermelho à espera que o da frente avançasse, para poder ir à sua vida. E nada.
Os ouvidos recebiam a bomba primeiro. Estalavam, apitavam, e a coisa alastrava para a cabeça, vibrante, ansiosa, feliz por estar de volta. Queria partir tudo, tal era a minha alegria, mas como perdia a força nas pernas, e caía, nunca passei vergonhas.
Com o tempo perdeu a graça. Precisava de alguém para descarregar, como as nuvens descarregam electricidade no chão e depois choram. Tive sorte porque fui à Fnac. Na zona dos DVD’s reparei em ti, a estudar uma edição especial da colecção “Catástrofes Naturais” dedicada às tempestades eléctricas. Tinhas as pontas dos dedos escuras, indicador e médio queimados, a marca da nossa sociedade secreta. Fomos para a caixa, pagaste, ofereci-me para levar o saco, e quando sem querer te toquei na mão levei um choque. Tu riste muito.
Estava um dia lindo, nuvens carregadas, de certeza que ia chover, e fomos correr para a praia. Pendurámos as chaves de casa à cintura, como o Benjamin Franklin fez ao papagaio, e fizemo-nos ao jogging com a esperança de ter o choque de uma vida. FHF