28.10.04

Debate urgente no sábado

Debate urgente no sábado, 30 de Outubro, às 17h, no Teatro Maria Matos

O segundo debate associado ao espectáculo "Urgências" será no próximo sábado, dia 30 de Outubro, às 17 horas. O debate terá como tema “Urgências contemporâneas”, focando questões urgentes da sociedade portuguesa, tentando tomar o pulso às urgências do nosso país.

Convidados para debater estas e outras questões, estarão presentes a jornalista Helena Matos, o argumentista Nuno Artur Silva e o jornalista José Mário Silva. O debate será moderado por Pedro Mexia.

Entre os assistentes contaremos com a presença dos actores e autores que compõem a equipa criativa do espectáculo Urgências, um projecto das Produções Fictícias com o Mundo Perfeito, em cena de 3ª a sábado, às 21h30, até 30 de Outubro, no Teatro Maria Matos

27.10.04

Sobre a importância do protector solar

Reza a lenda que o texto que se segue é mesmo o discurso de final de ano lectivo de um professor de uma escola secundária norte-americana. Verdade ou mito urbano, não faço ideia. Fiquei a conhecê-lo por causa de um vídeo que passava insistentemente na MTV, com o nome “Everyone's Free (To Wear Sunscreen)”. No lugar geralmente destinado ao nome do artista, podia ler-se “Baz Luhrmann”, mais conhecido como realizador de “Romeu+Juliet” e “Moulin Rouge”. O vídeo sempre me intrigou, sobretudo por nem sequer se tratar de uma música, ficando assim tão deslocado de toda a pop cor-de-rosa que passava na MTV. Todo o discurso era dito em tom monocórdico, com uma tímida batida de dança por baixo. Consistia numa listagem de conselhos que deviam ajudar os finalistas daquele ano a prepararem-se para a vida no mundo real. Mas o narrador fazia a ressalva: “De tudo isto, a única coisa de que tenho a certeza é de que devem usar sempre protector solar”.
Sempre gostei muito deste texto. E ter de pensar nas minhas urgências fez-me descobri-lo de novo.

Ladies and Gentlemen of the class of '97.
Wear sunscreen.

If I could offer you one tip for the future, sunscreen would be it. The long-term benefits of sunscreen have been proved by scientists whereas the rest of my advice has no basis more reliable than my own meandering experience... I will dispense this advice now.

Enjoy the power and beauty of your youth; oh, nevermind, you will not understand the power and beauty of your youth until they've faded. But trust me, in 20 years you'll look back at photos of yourself and recall in a way you can't grasp now, how much possibility lay before you and how fabulous you really looked. You are NOT as fat as you imagine.

Don't worry about the future; or worry, but know that worrying is as effective as trying to solve an algebra equation by chewing bubblegum. The real troubles in life are apt to be things that never crossed your worried mind; the kind that blindside you at 4pm on some idle Tuesday.

Do one thing everyday that scares you.

Sing.

Don't be reckless with other peoples hearts. Don't put up with people who are reckless with yours.

Floss.

Don't waste your time on jealousy; sometimes you're ahead, sometimes you're behind. The race is long, and in the end, it's only with yourself.

Remember compliments you receive. Forget the insults. If you succeed in doing this, tell me how.

Keep your old love letters. Throw away your old bank statements.

Stretch.

Don't feel guilty if you don't know what you want to do with your life.

The most interesting people I know didn't know at 22 what they wanted to do with their lives, some of the most interesting 40 year olds I know still don't.

Get plenty of calcium.

Be kind to your knees, you'll miss them when they're gone.

Maybe you'll marry, maybe you won't. Maybe you'll have children, maybe you won't. Maybe you'll divorce at 40. Maybe you'll dance the funky chicken on your 75th wedding anniversary.... Whatever you do, don't congratulate yourself too much or berate yourself either - your choices are half chance, so are everybody else's.

Enjoy your body, use it every way you can... don't be afraid of it, or what other people think of it... it's the greatest instrument you'll ever own.

Dance... even if you have nowhere else to do it but in your own living room.

Read the directions, even if you don't follow them.

Do NOT read beauty magazines they will only make you feel UGLY.

Get to know your parents, you never know when they might be gone for good. Be nice to your siblings; They're your best link to your past, and the people most likely to stick with you in the future.

Understand that friends come and go, except for the precious few you should hold on. Work hard to bridge the gaps in geography and lifestyle because the older you get, the more you need the people you knew when you were young.

Live in New York City once, but leave before it makes you hard. Live in Northern California once, but, leave before it makes you soft.

Travel.

Accept certain inalienable truths. Prices will rise, Politicians will philander, you too will get old. And when you do, you'll fantasize that when you were young, prices were reasonable, politicians were noble, and children respected their elders.

Respect your elders. Don't expect anyone else to support you. Maybe you'll have a trust fund, maybe you'll have a wealthy spouse; but you never know when either one might run out.

Don't mess too much with your hair, or by the time you're 40, it will look 85.

Be careful whose advice you buy, but, be patient with those who supply it. Advice is a form of nostalgia; dispensing it is a way of fishing the past from the disposal, wiping it off, painting over the ugly parts, and recycling it for more than it's worth.

But trust me on the sunscreen.

SR

26.10.04

Ein berliner

Filipe Homem Fonseca, autor da peça curta "Azul a Cores", que faz parte do espectáculo Urgências é também autor do argumento do telefilme "Só Por Acaso", que hoje recebeu o Prix Europa, na categoria de ficção televisiva do Festival de Berlim.
O Prix Europa Especial é um galardão com patrocínio do Parlamento Europeu . É a primeira vez que uma produção portuguesa é distinguida neste festival, considerado o mais importante da Europa na área da televisão, rádio e internet.
Outro interveniente do espectáculo Urgências, o actor Marco d'Almeida (que interepreta a peça curta "Genebra", de Pedro Mexia) é também protagonista de "Só Por Acaso", uma produção de Paulo Branco com realização de Rita Nunes.

Ai, orgulho!

25.10.04

Urgências de intervalo

No espectáculo que continuaremos a levar à cena até ao final desta semana no Maria Matos, há um momento em que o público adquire especial protagonismo. No final da primeira parte, o Marco d'Almeida anuncia num dos microfones instalados em palco: "durante o intervalo, é urgente escreverem as vossas urgências nos post it's que estão no foyer". O público sai e, mesmo antes do final do intervalo, um dos actores do elenco desce do palco, atravessa a plateia e vai lá fora recolher as diversas urgências assinadas pelos espectadores. Quando regressa, já quase todo o público está instalado na plateia. Em palco, o elenco reúne-se num círculo. Num ambiente de excitação e curiosidade, distribuímos entre nós os papelitos amarelos. Chegamo-nos todos à beira do palco e lemos. Todas as noites são muitas. Estas são só algumas.

"É urgente mudar de governo"

"É urgente acabar com a burocracia"

"É urgente apartamento barato para alugar. Tm: 96*******"

"É urgente que eu seja operada à catarata da vista esquerda, porque senão começo a ter uma catarata na vista direita e acabo por ficar completamente cega"

"É urgente ser feliz"

"É urgente dizer à minha avó que sinto muito a sua falta"

21.10.04

Debate urgente no sábado

Associados ao espectáculo Urgências, vão realizar-se dois debates no Teatro Maria Matos. O primeiro será já no próximo sábado, dia 23 de Outubro, às 17 horas. O debate terá como tema “A Urgência na Prática Teatral”, focando questões como a relação do teatro com a actualidade e a forma como a sociedade contemporânea contamina e se deixar contaminar pelo teatro.
Convidados para debater estas e outras questões, estarão presentes a actriz e encenadora Cristina Carvalhal, o dramaturgo Jacinto Lucas Pires e o director do festival CITEMOR, Armando Valente. O debate será moderado por Tiago Rodrigues.
Entre os assistentes contaremos com a presença dos actores e autores que compõem a equipa criativa do espectáculo Urgências, um projecto das Produções Fictícias com o Mundo Perfeito, em cena de 3ª a sábado, às 21h30, até 30 de Outubro, no Teatro Maria Matos.

As vossas urgências

Fazes-me falta.

Ainda sinto o teu sorriso mas não é a mesma coisa.

Era tão bom que ainda cá estivesses a sorrir e a tocar na minha mão enquanto estou distraído a olhar para a televisão. Depois podias pedir-me um beijinho e eu negava-to porque sou um limão azedo.

Assim digo-te coisas urgentes. Pequenas coisas urgentes que julgo que queres saber.

Tenho novidades boas para te contar. Ouve.

Urgência enviada por João Vaz para urgencias@sapo.pt

As vossas urgências

Queria dizer-te, queria dizer-te tudo e agora, mas não com as mesmas palavras que já ouviste pela boca de outras, não com as mesmas que tu usaste com outras.

É urgente inventar novas palavras porque estas já estão gastas, banais, mal usadas e abusadas.

É urgente inventar novas palavras que mais ninguém saiba o significado, que nunca ninguém tenha usado. Só nós dois.

Urgência enviada por Joana Azevedo para urgencias@sapo.pt

As vossas urgências

«Eu já percebi que tu tens angústias. Não me refiro às angústias
sentimentais. Refiro-me às outras, às inquitações. O dicionário à angústia
chama estreiteza, aperto, limitação de espaço. Uma "urgência" é algo que se
tem de fazer para calar uma "angústia", para tornar a ter ar suficiente para
respirar. Se te "angustia" estar parado, a tua urgência é viajar. Se te
inquieta não criar, urge que cries. Pelo menos isso é o que eu sinto que tu
sentes. Sabes, isso que tu dizes de seguir o caminho certinho deve ser
deixado para quem não tem angústias e por isso não sente urgências. Mas
aqueles que as têm não se podem deixar paralizar pelo medo sob pena de um
dia mais tarde, já tarde demais, descobrirem que não viveram a sua vida mas
sim a vida de um outro qualquer. As ambulâncias não páram nos vermelhos.»

Urgência enviada por Nuno Godinho para urgencias@sapo.pt

As vossas urgências

Esta crónica de António Lobo Antunes foi-nos enviada, com carácter de urgência, pelo leitor e espectador Miguel Sampaio para urgencias@sapo.pt. Obrigado, Miguel, pelo envio do texto e pelos elogios ao espectáculo.


Antes que anoiteça

"Por razões que não vêm ao caso, as últimas semanas, difíceis para mim, têm-me obrigado a pensar no passado e no presente e a esquecer o futuro. Sobretudo o passado: tornei a encontrar o cheiro e o eco dos hospitais, essa atmosfera de feltro branco, onde as enfermeiras deslizam como cisnes, que nos tempos de interno me exaltava, o silêncio de borracha, brilhos metálicos, pessoas que falam baixinho como nas igrejas, a solidariedade na tristeza das salas de espera, corredores intermináveis, o ritual de solenidade apavorante a que assisto com um sorriso trémulo a servir de bengala, uma coragem postiça a mal esconder o medo. Sobretudo no passado porque o futuro se estreita, e digo sobretudo o passado visto que o presente se tornou passado também, recordações que julgava perdidas e regressam sem que se dê por isso, os domingos de feira em Nelas, os gritos dos leitões
(lembro-me tanto dos gritos dos leitões agora)
um anel com o emblema do Benfica que aos cinco anos eu achava lindo e os meus pais horrível, que aos cinquenta anos continuo a achar lindo apesar de achar horrível também, e julgo ser altura de começar a usá-lo uma vez que não me sobra assim tanto tempo para grandes prazeres. Quero o anel com o emblema do Benfica, quero minha avó viva, quero a casa da Beira, tudo aquilo que deixei fugir e me faz falta, quero a Gija a coçar-me as costas antes de me deitar, quero o pinhal do Zé Rebelo, quero jogar pingue-pongue com o meu irmão João, quero ler Júlio Verne, quero ir à Feira Popular andar no carrossel do oito, quero ver o Costa Pereira defender um penalti do Didi, quero trouxas de ovos, quero pastéis de bacalhau com arroz de tomate, quero ir para a biblioteca do liceu excitar-me às escondidas com a «Ruiva» de Fialho de Almeida, quero tornar a apaixonar-me pela mulher do faraó nos «Dez Mandamentos» que vi aos doze anos e a quem fui intransigentemente fiel um verão inteiro, quero a minha mãe, quero o meu irmão Pedro pequeno, quero ir comprar papel de trinta e cinco linhas à mercearia para escrever versos contadas pelos dedos, quero voltar a jogar hóquei em patins, quero ser o mais alto da turma, quero abafar berlindes olho de boi, olho de vaca, contramundo e papa.
Quero o Frias a contar filmes na escola do senhor André, a falar do Rapaz, da Rapariga e do Amigo do Rapaz, filmes que nunca vi a não ser através das descrições do Frias ( Manuel Maria Camarate Frias o que é feito de ti?) e as descrições do Frias eram muito melhores do que os filmes, o Frias imitava a música de fundo, o barulho dos cavalos, os tiros, a pancadaria no «saloon», imitava de tal forma que a gente era com se estivesse a ver, o Frias, o Norberto Noroeste Cavaleiro, o homem que achou que eu lhe estava a mexer no automóvel e se desfez num berro:
- Trata-me por senhor doutor meu camelo
a primeira vez que uma pessoa crescida me chamou nomes e eu com vontade de responder que o meu pai também era doutor, que ao entrar no balneário do Futebol Benfica para me equipar o Ferro-o-Bico explicou aos outros :
- o pai do ruço é doutor
e houve à minha roda uma nudez respeitosa, o pai do ruço é doutor, quero voltar a apanhar um táxi à porta de casa e o chofer perguntar:
- É aqui que mora um rapaz que joga hóquei chamado João?
e quero tornar a espantar-me por ele tratar assim o pai do ruço, quero partir um braço e ter gesso no braço ou, melhor ainda, uma perna para andar de canadianas e assombrar as meninas da minha idade, um miúdo de canadianas
achava eu, acho eu não há rapariga que não deseje namorar com ele e além disso os carros param para a gente atravessar a rua, quero que o meu avô me desenhe um cavalo, eu monte no cavalo e me vá embora daqui, quero dar pulos na cama, quero comer percebes, quero fumar às escondidas, quero ler o «Mundo de Aventuras», quero ser Cisco Kid e Mozart ao mesmo tempo, quero gelados do Santini, quero uma lanterna de pilhas no Natal, quero guarda-chuvas de chocolate, quero que a minha tia Gogó me dê de almoçar
- Abre a boca Toino
quero um pratinho de tremoços, quero ser Sandokan Soberano da Malásia, quero usar calças compridas, quero descer dos eléctricos em andamento, quero ser revisor da Carris, quero tocar todas as cornetas de plástico do mundo, quero uma caixa de sapatos cheia de bichos de seda, quero o boneco da bola, quero que não haja hospitais, quero que não haja doentes, quero que não haja operações, quero ter tempo para ganhar coragem e dizer aos meus pais que gosto muito deles ( não sei se consigo) dizer aos meus pais que gosto muito deles antes que anoiteça senhores, antes que anoiteça para sempre."
António Lobo Antunes, crónica de 15 de Dezembro de 1996, in Crónicas do Público (1996)

A carta de condução

Nunca sei o que escrever em todo o tipo de formulários sempre que chega o espaço em branco reservado à "profissão". Mas poderei dizer com tranquilidade que me inclino cada vez mais para uma actividade relacionada com o teatro. Ao fim de alguns anos disto posso dizer que encontrei um padrão, um estranho, bizarro mas fascinante padrão: a minha vida torna-se bem mais interessante durante as temporadas de espectáculos em que estou envolvido.
Não o sei explicar, não tentarei sequer, mas é um facto. Há qualquer coisa que passa do palco para a vida no exterior. Um algo misterioso que me dá confiança e que conjuga uma série de acasos positivos. Por isso, mais do que o vazio a seguir à estreia, sinto-me particularmente triste no último espectáculo das temporadas. Tão perturbado como nos dias de aniversário - perante a constatação de que, inevitavelmente, estou um ano mais velho. Por outro lado, descobri sem querer que - com as "URGÊNCIAS" - algo novo mudou no que à minha própria maturidade diz respeito. Todas as pequenas peças me tocam, emocionam de determinada forma. Talvez tenha chegado a altura, no que a Teatro diz respeito, de tirar a carta de condução - isto é, de aceitar confortavelmente o facto inexorável de que estarei (e quero estar) ligado a este mundo para o resto da vida.
Porque descobri que não são importantes os meus 27 anos de vida mas sim o pormenor deste ser o meu 18ºespectáculo de teatro (contabilizando diversas funções nas fichas técnicas dos ditos dezoito).
Pai, mãe... já sou adulto, maior e imputável. Venha a meia-idade que não há tempo a perder. LFB

João Ferreira

Aqui há dias, no Lux, sou abordado pelo João Ferreira. Pergunta se sou quem ele julga que sou e começamos a falar sobre as "Urgências". Disse o João que já acompanhava os blogues há muito tempo, que lê este, que já quis escrever para cá e que deseja ver as "Urgências". Diz-me que é de Leiria mas que o nosso tipo de trabalho e o acompanhamento que faz do mesmo fazem senti-lo cosmopolita, como se vivesse cá.

Caro João,

não sei se isso é bom ou não (sou açoriano, prefiro a ilha à metrópole);
não sei se já nos escreveste ou não;
mas só queria pedir-te desculpa por não ter tirado mais um tempo para falar contigo, queria convidar-te expressamente a que nos mandes a tua urgência e, já agora, convidar-te para o espectáculo.

Aceita estes convites e um abraço amigo do
LFB

ps: e desculpa se este post em teu nome te incomodar mas foi a maneira que encontrei para agradecer um acaso tão agradável.

O berlinde

Na azáfama própria dos últimos minutos antes da estreia, a Joana Seixas distribuiu berlindes no corredor dos camarins. Um berlinde para cada um, actores e autores, para desejar "boa sorte" e "jogarmos no fim".
Durante as duas horas de espectáculo, não tirei o meu berlinde das mãos. Lembrei-me de várias coisas: de que era um excelente artifício anti-stress; de que nunca fui bom a jogar ao berlinde; de que me tinha esquecido deste objecto, da sua beleza colorida, das memórias imediatas para que nos remete - infância, saquinhos de rede, abafadores, pátios de escola.

O berlinde, entretanto, já está lascado e perdeu alguma cor. É irresistível deixá-lo pular no chão, jogá-lo contra as paredes, arriscar uma jogada contra um adversário imaginário. Mas está todos os dias no meu bolso. Nos dias de espectáculo, nos dias em que não há, durante o horário de trabalho e às horas das refeições. Para me recordar que há um jogo por jogar, uma boa sorte a manter e para que nunca me esqueça do novo pátio de escola que este grupo encontrou: o recreio do Maria Matos, o pátio que é o palco, o sítio onde podemos brincar como dantes - pensando apenas no momento presente, sem as preocupações do antes e os receios do depois.

É isto que me fica da estreia. Um berlinde. Quer dizer, um objecto para guardar as memórias do tempo que aqui passámos. A verdade é que, tal como em todas as relações que terminam, uma estreia é apenas um período efémero, um intervalo no tempo, uma noite memorável. Mas um objecto que se conserva a partir dessa memória é já algo mais. É um símbolo. E os símbolos arriscam sinceramente a imortalidade. LFB

19.10.04

"Aquilo"

Já passaram quatro dias desde a estreia das Urgências e ainda não fui capaz de escrever sobre isso no blog. Claro que tenho um rol certeiro de desculpas. Desde a clássica “falta de tempo” até à tecnologicamente avançada “a internet está em baixo”. Mas tudo isto são aldrabices, sobretudo para me enganar mim própria. A verdade é que não sei o que hei de escrever. Cada vez que coloco o ponto final numa frase, apago-a de seguida. Tudo me parece lamechas, injusto, redutor, demasiado elaborado ou simplesmente parvo.
A sensação depois da estreia é de vácuo. Um vazio terrível que faz as vezes da alegria e do orgulho que o nosso subconsciente nos avisa que devíamos estar a sentir. Pela primeira vez é cem por cento palpável que a minha Urgência já não é um documento de Word a viajar entre o meu mail e o mail do Tiago. E de repente “Aquilo” já não nos parece nosso. É difícil de explicar. A imagem mais próxima que consigo encontrar é aquela que se vê nos filmes, quando um personagem morre mas consegue continuar a ver o seu corpo cá em baixo. Sabemos que nos podemos reconhecer ali, mas “Aquilo” já não somos nós e foge ao nosso controlo.
Estou muito orgulhosa de todo o projecto Urgências. Acho que temos um grande espectáculo. E gostava de conseguir escrever mais apaixonadamente sobre “Aquilo”.
Mas não me sai melhor do que isto. Não faz justiça ao espectáculo, eu sei. Mas pelo menos desta vez consegui controlar-me e não apagar tudo outra vez. SR

18.10.04

Foi como entrar, foi como arder

Saiu hoje o primeiro disco ("Bom Dia") de uma nova banda portuguesa, os Pluto. Isto pode não parecer urgente, mas é. Porque os Pluto nasceram das cinzas daquela que é (para mim) a melhor banda portuguesa dos últimos anos: os Ornatos Violeta. E se me pedissem para transformar o espectáculo Urgências em música, os Ornatos iam estar no topo da minha lista. Pela crueza e simplicidade com que passam a sua mensagem. Como murros no estômago. Aqui e agora. Urgentemente.


Ornatos Violeta
"Chaga"

(Manel Cruz, Peixe)


Foi como entrar foi como arder

para ti nem foi viver
foi mudar o mundo sem pensar em mim
mas o tempo até passou
e és o que ele me ensinou
uma chaga pra lembrar que há um fim
Diz sem querer poupar meu corpo
eu já não sei quem te abraçou
diz q eu não senti teu corpo sobre o meu
quando eu cair eu espero ao menos que olhes para trás
diz que não te afastas de algo que é também teu
não vai haver um novo amor
tão capaz e tão maior
para mim será melhor assim
vê como eu quero e vou tentar
sem matar o nosso amor
não achar que o mundo é feito para nós
Foi como entrar foi como arder
para ti nem foi viver
foi mudar o mundo sem pensar em mim
mas o tempo até passou
e és o q ele me ensinou
uma chaga pra lembrar que há um fim SR


17.10.04

Contrariar a superstição

É das primeiras coisas que aprendemos quando começamos a fazer teatro. A superstição. Não se agradece a quem deseja merda. Não se diz a palavra azar. Entra-se no palco com o pé direito. Quando se deixa cair o texto no chão do palco, devemos levantá-lo do chão com a mão direita e passá-lo para a mão esquerda. Não se assobia nos camarins. Não se deixam as gavetas dos camarins abertas. O segundo dia de espectáculo é sempre mau ou, pelo menos, pior que a estreia.
Acabo de chegar a casa depois da segunda noite de exibição das Urgências. Não sei se foi por causa da urgência com que subimos ao palco, mas a verdade é que contrariámos a superstição. Foi melhor que na estreia. E terça feira estaremos de volta para fazer ainda melhor e mais urgente. De terça a sábado, às 21h30, até 30 de Outubro. Cada vez mais urgente. TR

16.10.04

De fora depois da estreia

Estamos felizes com a estreia das Urgências. Quando, há um mês, começámos a ensaiar as Urgências sabíamos que um processo de trabalho tão ambicioso e limitado no tempo implicava riscos. Foi absolutamente fantástico ver como os actores, autores, técnicos, produção e etc. aderiram ao conceito, empenhando-se e implicando-se pessoalmente neste projecto. Ontem, um minuto antes de abrirmos as portas ao público, tive a oportunidade de dizer aos actores que me acompanham em palco que mesmo que não tivessem existido as limitações, a precaridade, as circunstâncias difíceis que existiram não queria ter feito este espectaculoi de forma diferente. Os riscos que corremos têm grande parte a ver com a força que o público da estreia de ontem reconheceu neste trabalho. No entanto, esses riscos têm um preço. Infelizmente, a peça curta que eu assino na ficha técnica das Urgências não vai ser apresentada. Foi lida, na estreia, com grande coragem por parte da Cláudia Jardim. Agradeço-lhe. Mas não é possível que faça parte deste espectáculo. É só um texto e ainda não é teatro. Chama-se "22 de Agosto" e estará disponível para ser lida neste blogue. Talvez um dia se torne teatro. TR

22 de Agosto

boa noite, boa noite a todos
obrigado por terem vindo ao teatro
e agora vou directo ao que interessa
estou aqui no palco para vos contar uma história
é uma história real, passou-se comigo
e apesar de se ter passado comigo é uma boa história
por isso, se vieram cá para ver teatro
talvez seja altura de vos avisar que não estou
aqui neste palco para fazer teatro
estou aqui, eu mesmo, eu pessoa real
eu, que vim agora da vida real
lá de fora da rua, dos restaurantes e dos táxis
de onde vocês também vêm
e estou aqui para vos contar uma história
que é igual a fazer teatro, mas sem merdas
sem merdas à volta, sem personagens, sem dramaturgia
nem conceitos ou estéticas ou teorias
porque o que eu quero mesmo é contar-vos esta história
porque foi uma coisa que me aconteceu mesmo
a mim, lá fora, de onde nós vimos
por isso não preciso de mais nada
e vou contá-la
já sabem o principal, ou seja
quem é o protagonista da história
que é, neste caso, o próprio autor, ou seja - eu
na verdade os autores
são sempre os protagonistas das suas histórias
mas torcem e retorcem as coisas
de forma a não serem reconhecidos
de forma a parecer que as suas histórias falam sobre toda a gente
e não apenas sobre eles próprios, que é a verdade
e isso é o mesmo que dar-nos
a nós todos que estamos aqui no teatro
vocês sentados e nós em pé
uma razão ou uma desculpa
de cá virmos e de passarmos assim a noite
porque pensamos que as histórias
também falam de nós todos
ora nesta história, já vos disse antes
o herói sou eu, o autor
e toda a história fala apenas sobre mim
digo isto para que não achem, mais tarde
que havia uma razão para terem vindo ao teatro esta noite
nasci há pouco mais de 27 anos
no hospital de santa maria
mas minto sempre e digo que nasci na amadora
a razão é que gosto muito dos subúrbios
porque se vêem as coisas de fora
na altura em que se desenrolaram os acontecimentos
que aqui vou narrar, tinha 27 anos
donde se presume que a história que vou contar
aconteceu há pouco tempo e é bem presumido
porque foi ainda não há dois meses
em pleno agosto, estava lisboa um deserto
apenas agradável a turistas de sandálias
e condutores de transportes públicos
lisboa tranquila, sem buzinas nem martelos pneumáticos
lisboa a hibernar no pico do verão
uma cidade a espreguiçar-se com nenhum gosto
lisboa com os teatros vazios
lisboa como uma criança encerrada num quarto
a ver pela janela todas as outras crianças a brincar no recreio
lisboa com tempo a mais e gente a passear na margem do rio
como se o rio não estivesse lá todo o ano
estava assim a cidade e eu nela
eu no meu apartamento
na minha rua que vai dar à praça da alegria
sem que a alegria tenha vindo alguma vez
dar à minha rua
mas, sem mais poesias, eu sozinho no meu apartamento
a saber que tenho que escrever
sem ser obrigado a fazê-lo
durante o ano, nos onze meses do ano
em que lisboa faz barulho
escrevo todos os dias para ganhar o meu
a minha profissão é plagiar o dicionário
junto palavras, com mais ou menos prazer
entrego-as todas juntas, com vírgulas a colá-las umas às outras
e recebo o meu dinheiro
há quem faça pior, há quem ande por aí a roubar
eu nem sequer roubo as palavras, mudo-lhes os lugares
e depois devolvo-as
é o que eu faço e normalmente com prazos apertados
tens três dias para mudar mil palavras de lugar
e eu digo que sim ou não, dependendo do dinheiro
digo quase sempre que sim
exactamente porque dependo do dinheiro
no entanto
neste agosto, em particular a 21 deste agosto
não tinha um dia marcado para apresentar
as palavras mudadas de lugar
nem sequer tinha a quem apresentá-las
nem sequer tinha que lhes mudar o lugar
estava sentado em frente ao computador
e repetia aquilo que tinha dito a mim próprio
todas as manhãs durante esse mês: tu começaste
a mudar palavras de lugar por prazer, foi
por isso que aprendeste o que sabes sobre as
palavras, onde está isso agora?
e recordava que
logo a seguir ao liceu, até tinha pensado que talvez descobrisse
lugares novos para as palavras
ignorava que já estavam todos ocupados
e que a maior parte das palavras já deu a volta ao mundo
pensava, na altura, que talvez houvesse nalgum ponto do planeta
talvez no pacífico, uma ilha por descobrir
onde eu pudesse meter uma palavra e dizer
meti uma palavra num lugar onde uma palavra nunca tinha estado
isto tudo para vos explicar
(e passo já à acção da história)
que estava em casa há vinte dias a convencer-me
de que tinha chegado o momento de escrever
o que sempre tinha querido escrever
e que não escrevia porque tinha que escrever para sobreviver
eu sabia que este mês parado, um mês sem compromissos
era a oportunidade que o tempo me dava de dizer
aquilo que omitia diariamente
fazendo-me desejar que agosto aterrasse em lisboa
para eu ter tempo para as minhas coisas
as minhas ideias, as minhas histórias
este era o mês em que não ia sentir-me diluído
em trezentas mil coisas para fazer
que não são o que eu realmente tenho para fazer
e agosto chegou e durante vinte dias o deserto
porque era agosto e estava um silêncio fodido
desculpem a palavra mas não me apetece pôr neste lugar
outra palavra porque esta é que merece o lugar
a seguir a agosto deve vir silêncio
e a seguir a silêncio deve vir fodido
mesmo assim, fodido
eu sentei-me, de manhã, e liguei o computador
como noutras manhãs, mal tinha chegado o momento de escrever
e já me estava a levantar para fazer café e fumar cigarros
irritava-me o silêncio da cidade
abria a janela da sala e a janela da cozinha
para o barulho poder entrar e ele não vinha
nem sequer uma corrente de ar que fizesse tremer os cortinados
fazia-me falta o rumor do trânsito na avenida da liberdade
o cão minúsculo do meu vizinho que ladra a tudo quanto
passa na minha rua e que o meu vizinho levou de férias para o algarve
faziam-me falta as crianças do andar de cima que pertence
a uma senhora que é ama e toma conta de quatro crianças
sempre aos berros desde as oito da manhã
sempre a deixarem cair brinquedos no soalho
a arrastarem os móveis, autênticos selvagens
que não me deixam dormir
e faziam-me falta, já não conseguia escrever sem o barulho das crianças
que só param duas horas à tarde para fazer a sesta
e eu estou tão habituado ao barulho delas enquanto escrevo
que à hora da sesta não me sai uma palavra
porque está tudo demasiado silencioso
e até me habituei eu mesmo a fazer a sesta
a meio da tarde, as crianças a dormir no andar de cima
e eu, sem conseguir escrever, a dormir no sofá
e agora os pais levaram os miúdos com eles para a terrinha
ou para a praia e ficou só a ama, que é silenciosa
como um cadáver e os dias parecem sestas de vinte e quatro horas
nesse dia 21 também me faziam falta
as notícias velozes na televisão
tenho a televisão sempre ligada quando estou em casa
mesmo que esteja todo o tempo de costas para ela
e a televisão estava lenta em agosto
à parte uns incêndios que não queimaram gente
a televisão parecia um aquário
tudo igual e pacífico, apenas uns peixes com ar imbecil
a nadar em círculos
já não havia crises políticas
nem possíveis eleições antecipadas
nem prisões preventivas de alegados pedófilos
portugal já não sonhava em ser campeão europeu
ficaram só as bandeiras
como as fardas comunistas vendidas tipo souvenir
depois da queda da união soviética
e nem sequer havia vento neste agosto
para fazer esvoaçar as bandeiras
que iam perdendo a cor por causa do banho de sol
sobre a cidade
e eu a tentar escrever
e faltava-me a pressa de chegar pontualmente
atrasado a uma reunião
onde todos têm ideias e perguntas e respostas
e faltavam-me os comentários políticos nas rádios
as análises económicas, as cotações da bolsa
a multidão de gente igual a mim
que tem coisas para dizer
e é como se virássemos um teatro ao contrário
e estivessem quinhentos actores sentados na plateia a falar
para três espectadores que estão em palco a ouvir
faltava-me tudo aquilo que tenho durante os onze meses
em que lisboa faz barulho
tudo aquilo de que me quero livrar para poder escrever
o que me interessa
era o que agora me faltava porque não suporto o silêncio
só consigo escrever rodeado do ruído que não me deixa escrever
não é que me faltem ideias
pelo contrário, tenho imensas ideias
algumas até são minhas
mas quando me sento para escrever
depois de beber o café e fumar os cigarros
leio no bloco de notas, escolho uma ideia
e preciso que ela esteja rodeada de outras ideias
milhares delas, de outras pessoas
quero sentir que a minha ideia se vai diluir nas dos outros
que não é definitiva, que a humanidade não depende dela
não quero que ela seja a única ideia de agosto
que nasça no meio do silêncio e prove ser
como sempre acontece
uma ideia inútil
no meio do silêncio, todas as minhas ideias
parecem menores, desprezíveis, juvenis
se vou escrever em agosto
se vou escrever para mim, sem ganhar dinheiro com isso
é porque vou escrever o que tenho realmente para dizer
o que tenho necessidade de dizer
e no meio do silêncio de agosto suspeitei que talvez
não tivesse nada para dizer
e isto é que é realmente importante nesta história
o que eu queria fazer em agosto
era fabricar um espelho
o que eu escrevesse era o que tinha para dizer ao mundo
e fosse o que fosse, era o que eu sou
não podia ser uma merda qualquer
não podia ser só mais uma coisa
tinha que ser eu
e eu tinha histórias para contar
mas não achava que nenhuma fosse
suficientemente importante para ser eu
para ser o que os outros pensam que eu sou
não me chegava falar da história de amor entre uma fisioterapeuta
e o deficiente motor que ela está a tratar
uma prova de que o amor ultrapassa todos os obstáculos
não me chegava a história da mulher que abandona a família
mas compra um bilhete de ida e volta
como se não fosse dona do seu destino
não me chegava a história de uma prostituta brasileira
assassinada pelo próprio pai que tinha vindo de propósito duma aldeia do interior
do brasil para saber se era verdade o que diziam as más línguas
que a filha dele era puta em lisboa
não me chegava nenhuma das histórias que tinha na cabeça
porque não eram importantes ao ponto de ser
o que eu tenho para dizer ao mundo
que não tem que ser alguma coisa genial
que fique para a História
eu não quero escrever a bíblia
eu já li a bíblia, vocês já leram a bíblia?
o que eu quero escrever não tem que ser uma obra prima
eu sei que tipo de coisa seria
sei exactamente, seria alguma coisa parecida
com o único quadro que comprei na minha vida
na feira da ladra, há uns anos
tenho-o pendurado na sala, ao lado da mesa
onde está o computador, é uma paisagem
um rio com uma ponte, as margens relvadas com três árvores
no rio está um barco e dentro dele um pescador
o pescador tem um chapéu azul e segura uma cana de pesca
o curioso é que a cana está apontada para a margem
e não para o rio
seguindo o fio da cana de pesca com o olhar
reparamos que o anzol não está dentro de água
mas enterrado numa das margens
parece que está a pescar toupeiras
foi o que eu pensei quando comprei o quadro
foi barato, o vendedor disse
faço-lhe um preço especial
ninguém quer comprar esse
o pintor enganou-se, já reparou?
eu já tinha reparado, era por isso que o estava a comprar
a história que queria escrever em agosto era este quadro
um quadro destes, uma paisagem banal pintada por um amador
uma situação normal com um erro
devia ser assim a minha história
uma coisa que eu quisesse pendurar na minha parede
estava eu a pensar, nesse dia 21
já era hora de almoço e nada escrito
e então começa a história, sim, só começa aqui
reparem que agora o tempo verbal passa a ser o presente
para dar outro ritmo à história, acabada de começar
levanto-me da mesa e esqueço-me desligar o computador
pego na carteira, verifico se tenho os documentos
saio de casa, nas escadas passo pela vizinha do primeiro andar
mora sozinha, estuda jornalismo e trabalha numa loja das amoreiras
tem vestida uma t-shirt da madonna
eu digo
ela vem dar um concerto a lisboa em setembro
ela diz
os bilhetes são muito caros, vou ver se arranjo convite
eu digo
adeus, boa sorte
ela diz
adeus, obrigada e mete as chaves à porta
saio do prédio e desço a rua até à praça da alegria
apanho um táxi, é para o aeroporto
os estofos de cabedal estão a escaldar
mas a corrida não demora nada, as ruas estão vazias
saio no aeroporto que faz ainda mais eco do que o habitual
só turistas de sandálias e muito espaço vazio para fazer eco
vou à bilheteira e peço um bilhete para oslo
como se pedisse um bilhete para a sessão das nove e meia no cinema
o avião sai daqui a umas horas, passeio pelo aeroporto
vejo uma mulher que fala com sotaque brasileiro
perguntar nas informações se o voo que vem
de salvador da baía já chegou
pelos saltos, a chiclete mastigada de boca aberta, a saia muito curta
a maquilhagem e o andar quase dançado
reconheço a prostituta da minha história
ali está ela, a minha personagem
umas horas antes da história começar
umas horas antes do pai chegar do brasil, descobrir a verdade
e consumar o crime de honra, estrangulando-a
no pequeno apartamento que o chulo dela alugou
perto da praça do chile
penso que a prostituta da minha história tem mais encanto
que esta, pedindo informações, tão real, tão mulher
é demasiado humana
por isso fujo dela e vou na direcção
da porta de embarque e já no avião
que levanta voo reparo apenas numa passageira
apesar do avião ir quase cheio
uma mulher que chora e segura um bilhete de ida e volta
e penso, é a mulher da minha história
aquela que abandona a família
mas um hospedeiro loiro passa por ela
e a mulher do bilhete de ida e volta pisca-lhe o olho
e eu penso, esta é demasiado imperfeita
a minha personagem era perfeita, vencida pelo destino
esta mulher real, aqui no avião, ainda tem esperança
ainda é demasiado humana
e isto bastou para que a viagem chegasse ao fim
apenas nuvens lá fora
nuvens que esconderam madrid, paris, bruxelas
amesterdão, berlim, zurique, viena, copenhaga
todas as cidades por onde podemos ter passado
escondidas por nuvens que só terminam agora
enquanto o avião desce para oslo
e já no aeroporto vejo um casal que discute
ele numa cadeira de rodas e ela de pé
ele que grita e ela que lhe vira as costas
e o abandona, na sua cadeira metálica, incapaz de a acompanhar
perdido no meio do aeroporto de oslo
e penso que o amor não ultrapassa todos os obstáculos
e aquela mulher queria um homem que pudesse
correr com ela num parque, ensinar os filhos a andar de biciclete
e por isso foi embora, foi humana
ao sair do aeroporto ouço um murmúrio agudo
penso, é do avião, foi a descida
à medida que me aproxima do centro da cidade
o murmúrio aumenta de intensidade
observo o taxista que me conduz e não parece
incomodado pelo ruído
saio do táxi perto do porto de oslo
e o murmúrio transforma-se num zumbido
mas nem os marinheiros que saem dos barcos
nem os homens e mulheres loiros sentados nas esplanadas
parecem dar conta, o ruído não os incomoda
como as pessoas que vivem numa terra onde há uma fábrica de celulose
habituam-se ao cheiro e já nem dão conta
que o sítio onde vivem cheira a merda
e enquanto anoitece em oslo
eu vou passeando e o som-zumbido-ruído
torna-se cada vez mais intenso
e eu vou andando na direcção de onde me parece vir o som
passo pelo jardim do palácio real
pelas ruas vazias onde os semáforos são diferentes
pelas praças onde os corvos são tantos que
parecem os pombos de lisboa
e o ruído é cada vez mais intenso
faz-me vibrar o esterno e eu caminho
cigarro após cigarro
na direcção do ruído e depois amanhece
e são quase nove da manhã
quando o ruído se torna insuportável
e eu estaco em frente a um prédio
é dali que vem o ruído e na fachada do prédio
por cima da porta está escrito Museu Munch
então a porta abre-se
e eu fico ali uns minutos a fumar cigarros
a desfrutar do ruído insuportável
algumas pessoas entram, estrangeiros como eu
eu entro também e o ruído toma conta de mim
puxa-me na sua direcção como se de súbito eu tivesse fios
presos às minhas mão e pés
e só deixo de me sentir uma marioneta quando os meus olhos
dão com um quadro e aí o ruído torna-se um grito
um grito impossível que me deixa sereno
o quadro, uma pintura sobre cartão em vez de tela
uma pessoa numa ponte
as mãos na cabeça e a boca escancarada
uma pessoa que grita e tapa os ouvidos para não ouvir um grito
uma mãe bósnia que perdeu o filho na guerra
um funcionário público que foi despedido
uma bailarina no meio da coreografia
debaixo do quadro está escrito
o grito, edward munch, mil oitocentos e noventa e três
eu pego no quadro, puxo-o na minha direcção
como se o quisesse abraçar
ele está preso à parede por fios que se rompem facilmente
as pessoas à minha volta olham-me
alguns sorriem, ninguém diz nem faz nada
a mim parece-me natural
o grito é agora tão forte que não ouço mais nada
nem os meus passos, nem as vozes dos outros, nem o meu coração a bater
enquanto caminho para a saída vejo outro quadro
uma mulher nua de sorriso perverso
o quadro chama-se madonna
mas eu acho a mulher pintada mais parecida
com a minha vizinha do primeiro andar do que com a madonna
trago esse também e calmamente
saio do edifício com um quadro em cada mão
surdo com o ruído que me acompanha
enquanto apanho outro avião
chego a lisboa, passo pela praça da alegria
e entro no meu prédio
paro no primeiro andar e bato à porta da minha vizinha
ele fica parada nas escadas, feliz, espantada
quando eu lhe entrego o quadro da madonna
assim já não precisas de convite nenhum
subo para minha casa, passo a cara por água
e penduro o grito ao lado do meu quadro do pescador de toupeiras
os dois, lado a lado, na minha parede
um quadro tem o ruído que me faz falta para trabalhar
um grito constante que nunca mais deixará que agosto seja um mês
de silêncio fodido
o outro quadro tem aquilo que eu quero dizer ao mundo
um custa milhões de dólares
e ou outro custou dois euros na feira da ladra
os dois na mesma parede
e mesmo assim continuo a preferir o do pescador
e assim acaba a minha história
a história de como nesse domingo
dia 22 de agosto
roubei o grito em oslo
e consegui sentar-me para escrever
o que realmente quero escrever e dizer ao mundo
continuo a escrever todos os dias
é um romance e acho que pode ser muito bom
a única altura em que tenho dúvidas disso é à hora da sesta
o verão acabou e as crianças do andar de cima voltaram
só para a meio da tarde para dormir a sesta
a essa hora eu tiro o grito da parede
deito-o no chão e cubro-o com todos os cobertores que tenho em casa
e deito-me em cima deles para dormir
continua, mesmo assim, a ouvir-se uma espécie de gemido
um grito abafado, vindo de longe
que se mistura com os murmúrios ténues
que saem das bocas das crianças enquanto sonham
todos os dias, quando me deito sobre o grito
à hora da sesta, mesmo antes de adormecer
faz-se silêncio e nesse momento
tenho a certeza de que o romance que estou a escrever
é inútil

15.10.04

Cheguei agora ao teatro

Cheguei agora ao teatro. Passa pouco das quatro da tarde. Passo pela entrada e há várias pessoas a levantar bilhetes. O telefone toca com insistência. No monitor do computador do senhor da bilheteira está escrito ESGOTADO. A letras garrafais e absolutas.
Transponho a fronteira que separa o burburinho real do lugar onde vamos fazer teatro esta noite. Está tudo calmo. A plateia na penumbra antecipa as perto de 600 pessoas que nos vão visitar na estreia desta noite.
Vou depositar os jornais do dia no meu camarim. Todos os outros camarins têm as portas abertas e estão ainda vazios. Os espelhos esperam os actores desta noite para começar a reflectir a vontade de subir ao palco.
No corredor dos camarins o chão está húmido. Vejo a Claudete que esfrega o chão. Tem vestido o seu uniforme verde de funcionária da limpeza. Cumprimenta-me com um sorriso. Um sorriso largo e quente. Um sorriso de estreia. Eu entro no meu camarim e ouço o som da esfregona a mergulhar na água do balde.

Hoje estreamos e o chão estará limpo. TR

Aforismo de estreia

Se não gostarem da (minha) peça, o demérito é meu. Se gostarem, o mérito é dos actores. PM

Instantâneos a poucas horas da estreia

A voz do Dinarte, sentado para o seu monólogo, a emocionar-nos todos os dias, cada vez mais;

A Cristina a improvisar um final "à la" Pina Bausch;

A Cláudia a gritar que a sua urgência é mandar isto tudo para o caralho;

A Joana a ler António Franco Alexandre;

O olhar da Sofia enquanto diz "É uma questão, se quiseres, de sensibilidade e risco";

Os discursos al-pacinescos do Tiago para motivar e unir o pessoal;

A gargalhada do Luís;

O Marco a dizer ao microfone que é urgente que os companheiros de elenco saibam que é um prazer trabalhar com eles;

os autores, espalhando-se pelas 400 cadeiras da plateia, a trocar sorrisos cúmplices.

A hora chegou. Gostava de ter escrito todas as Urgências.
LFB

14.10.04

Antes da urgência

Hoje vamos ver no palco o que durante meses esteve na nossa cabeça. Primeiro só o conceito, depois o que do conceito evoluiu para situações e para os fantasmas das personagens, por fim o que de imaterial se corporizou no corpo instável dos actores, na sua cena e contracena.
É sempre emocionante essa mistura impura do actor real com a sua personagem, a incerta geografia da linha de fronteira entre a vida real de um e a vida fingida do outro no seu vice-versa.

O conceito geral é o de uma escrita e uma representação sobre o presente, com um sentido de urgencia no mote e no método. Ocorre-me a comparação: este trabalho está para o teatro como o jornalismo está para a História, é feito imperfeito, em cima do presente, na espuma dos dias, inacabado e aberto, sem distância, sem recuo.

Post it. Começou por ser uma ideia do Paulo Martins para o cartaz, depois do Tiago Rodrigues para o cenário. É a imagem de marca do conceito: escrever ou fazer teatro é poder deixar um post it num coração.

Gostávamos de fazer das “Urgências” um evento anual. Todos os anos com novos escritores e novos actores, com as suas urgencias. Que todos os anos se abra um teatro novo. Que se possa acorrer ao teatro como quem recorre às urgencias.

A minha urgencia. A peça que escrevi chama-se “Sexo e nada de sexo”. No início da cena, ela hesita e dá-lhe a mão. Ele deixa-a pegar a mão por um instante, mas logo pega no bilhete de avião e diz: Está na hora… É melhor eu ir….
Nestes primeiros dez segundos está sinalizada toda a cena. É uma tragédia contemporânea, ou seja, é uma comédia. A tragédia contemporânea é não haver tragédia, não haver lugar, tempo para a tragédia. Tudo é espectáculo. Tudo é mediado pela lucidez e desencanto da ironia.
O que se passa com as nossas relações íntimas, sentimentais, amorosas? “ O que fica depois do sexo. O que resta. E o que se faz a partir daí. O que se faz a partir daí com o depois do sexo.” Foi este o meu ponto de partida.
“Escrever sobre música é como dançar sobre arquitectura”, é uma frase do Steve Martin, ou do Elvis Costello, não há certeza.
Escrever sobre o amor, as relações, é como escrever sobre música.
Não há nada melhor do que dançar sobre arquitectura.

Nuno Artur Silva

13.10.04

Confiança

A duas noites da estreia (no teatro, o trabalho mede-se em noites), depois de um mês intenso de criação-discussão-construção-trabalho, podemos dizer finalmente que confiamos. Uns nos outros. No que estamos a fazer e dizer. Na urgência de estarmos presentes. TR

As vossas urgências

No dia em que morreste. Deixei a Sandra no banho. Deixei o Gonçalo no colégio. Comprei o jornal. Sentei-me numa esplanada a tomar o pequeno almoço. No céu cinzento um desalento de plátanos. Um esvoaçar de Outonos.
E como estava longe de saber que ias morrer nesse dia. Pousei o jornal sobre a mesa. Comi como sempre um croissant misto. Um galão de máquina com leite frio, enquanto olhava distraído o sorriso largo de um sequestrado polaco sobre um avião sem trem de aterragem no aeroporto da Portela. Às primeiras gotas de chuva fugi para debaixo do toldo. Vi a rua reflectida no enorme vidro da pastelaria. Vi o meu rosto reflectido no meio da rua. Uma confusão de cidades. Uma vertigem de gaivotas. Começava a chover a sério. E não sei porque carga de água desliguei o telemóvel tirei a gravata tirei o casaco faltei ao trabalho comprei um maço de tabaco e fui até aquela estrada do guincho não sei bem para quê.
Nesse dia em que eu não sabia que ias morrer, paguei vinte euros a uma puta que me encharcou o carro todo. Comi duas mousses de chocolate ao almoço. Fiz três ou quatro horizontais. Não admite delongas com sete letras. Fácil. Li o horóscopo dos signos todos. Fiquei o resto da tarde sentado no carro a assistir à tempestade de chumbo que se abatia sobre o mar.
Não me lembro se cheguei a dormir. Nem do caminho de regresso a casa. Nem de que horas eram ou se já tinha anoitecido. Lembro-me de subir as escadas do prédio à procura daquele poema tramado. Aquele do homem e da mulher que numa tarde de chuva entre zunidos de conversa inventaram o amor com carácter de urgência. Lembro-me de ouvir lá em cima o Gonçalo brincar. Lembro-me da Sandra que sentiu os meus passos. Da Sandra que me abriu a porta com lágrimas nos olhos e me abraçou. Já sabes?
Também me lembro. E vai ser difícil esquecer. De pegar no telemóvel e ouvir a tua mensagem das 10H38m do cabrão do dia em que morreste. Mais logo ligavas. Não era nada de urgente.

Uma Urgência enviada por João Ricardo Pedro para urgencias@sapo.pt

11.10.04

Uma última breve explicação sobre o processo de trabalho

Na noite a seguir à proposta do Dinarte, fui acordado por alguém a gritar na rua. Levantei-me da cama meio adormecido para tentar perceber se aquilo que julgava ouvir se confirmava. Sim, pensei que estava a ouvir o Dinarte a dizer o meu texto lá em baixo. Aquilo que um crítico chamaria de "uma experiência radical entre o actor e o autor em jeito de serenata gritada". Eram quatro da manhã. Boa hora para voltar a tentar o sono. NCS

Outra breve explicação sobre o processo de trabalho

Ao fim de alguns dias de leituras, o Dinarte trouxe uma ideia "a rasgar": e se em vez de fazer uma data ensaios, dissesse o texto só no dia da estreia? A razão tinha a ver sobretudo com o carácter torrencial do texto - que ele não queria que se perdesse. Achei óptima a ideia. Não me pareceu estranha, já que tem a ver com um método dos STAN de que o Tiago costuma falar (ou seja, se não correr bem sempre podemos dizer que a culpa é dos STAN). NCS

Breve explicação sobre o processo de trabalho

Jardim das Amoreiras. Fins de tarde de primavera. Eu e o Dinarte Branco conversámos durante algum tempo sobre aquilo que era urgente dizermos na peça. Sentados à volta de uma mesinha e com gente desconhecida a passar por nós (um ou outro amigo também), lançámos cá para fora imensa coisa – a falta de tempo para fazermos aquilo de que gostamos, a vontade de sair, os horários trocados, as imposições, as escolhas, o direito à preguiça, Albert Cossery (de quem o Dinarte me falou cheio de entusiasmo para depois trazer dois belos livros). Tentei uma primeira versão da peça – que resultou numa espécie de sketch nonsense sobre uma reunião de condóminos. Abandonei essa versão porque achei que não era bem uma urgência mas sim um exercício. Ficou guardado para mais tarde. O mês seguinte foi um pouco angustiante. Pensei inclusivamente em abandonar o projecto por não ter nada de relevante para apresentar. Até que, provavelmente embalado pela poesia de que me rodeava, comecei a escrever um texto a que dei o nome “Problemas de Agenda”. Julgo que sintetiza e recria algumas das coisas de que falámos durante esses ociosos fins de tarde no Jardim das Amoreiras. Foi assim. E prontos. NCS

10.10.04

Jornal Oficial

Os dois textos anteriores, bem como "Quantas Cadeiras são Precisas?", de TR - foram publicados no jornal oficial das URGÊNCIAS. Todas as sextas-feiras, A Capital
dedica uma página do seu suplemento C2 ao nosso espectáculo. Mais uma razão para ler, para enviar urgências pessoais, para participar e (um dia destes) para ganhar bilhetes. Para quem acompanha este blogue já ficou claro que esta ideia de teatro foge ao normal. As Urgências não são nossas apenas, e funcionarão tanto melhor quanto mais vozes puderem escutar.

LFB

Quando me convidaram para as “Urgências” não me avisaram que ia ter de escrever esta coluna

Há sempre a hipótese de alguém ler estas linhas e irritar-se, a ponto de decidir que nunca irá assistir à nossa peça. Acontece-me com alguma frequência, leio ou ouço um comentário que me irrita, sobre um assunto qualquer, e depois a irritação cresce e estende-se ao próprio assunto. Os comentários do professor Marcelo Rebelo de Sousa na TVI, por exemplo, irritavam-me tanto que um dia, sem ter razões para isso, até comecei a irritar-me com este Governo. Mas agora o doutor Paes do Amaral já tratou de afastar aquele sabe--tudo irritante, e voltei a estar em paz.
A ideia deste espaço é cada um dos autores das “Urgências” discorrer sobre a peça, os actores com quem trabalha, o método de trabalho. Promoção, portanto. O problema é que há promoções que irritam. Estou a lembrar-me daquela da Caixa Geral de Depósitos. «Porque é que gostas das Urgências? Porque não estão na moda. Ainda». Seria muito irritante.
Para estas “Urgências” escrevi o texto “Azul a cores” e convidei a Cláudia Jardim e o Tiago Rodrigues para interpretá--lo. É um texto sobre as coisas que ficam por dizer quando a relação entre duas pessoas chega ao fim. Não é a minha urgência, não tem nada de autobiográfico, é pura ficção-, preferi escrever sobre o que não sei.
E isto é tudo o que vou dizer sobre a peça. O que realmente interessa é o que se vai passar em cima do palco a partir de dia 15, os bastidores ficam para um “Making of” a ser exibido em breve por uma das estações televisivas que nos apoia (está dado o recado). Talvez com imagens se consiga passar parte do ambiente que se vive nos ensaios, o que nunca seria possível com palavras, porque os ensaios acontecem quando já se está para além delas. E com esta frase acabei de quebrar a promessa que tinha feito a mim próprio de não cair em clichés, e irritei-me. Olhando outra vez para este texto, a verdade é que começo a ver outras frases que me irritam, por isso é melhor parar por aqui, antes que eu próprio desista de ir ver as “Urgências”. O que, depois de tanto trabalho, seria irritante.

Filipe Homem Fonseca

O texto mais urgente

1. As urgências esperam. As grandes urgências. O amor espera anos. A fome não espera anos. Mas a fome, em potência, fica saciada com comida. E o amor? Citemos o escritor sueco: a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer.

2. Este desafio de escrever sobre o que consideramos urgente tem algumas armadilhas. Somos sempre demasiado pessoais quando escrevemos sobre os nossos medos. E as nossas urgências são os nossos medos. Se fossem menos dependentes do medo, as urgências não eram efectivamente urgentes. É sempre possível adiar um jogo. Ou uma curiosidade. Mas o medo, na medida em que o evitamos, tem uma indesmentível urgência. E para escaparmos ao medo fazemos tudo, mesmo dar ao medo a luz de um palco. Além disso, sabemos que não existe nada estritamente «pessoal». Não somos assim tão diferentes uns dos outros. A cada momento pessoas que lêem dizem a pessoas que escrevem que se sentem retratadas num determinado texto. E nem se conheciam. É assim em todas as artes. Quando Andrei Tarkovsky fez Zerkalo / O Espelho (1974), o seu filme mais fragmentário e obscuro, passou pela costumeira acusação de «formalismo» e «hermetismo». No entanto, muitos foram os espectadores que se lhe dirigiram agradecendo. Diziam que era assim mesmo, era mesmo como estava no filme. Nesse filme hermético e obscuro.

3. A minha Urgência não será talvez sobre a minha urgência. Uso um esboço de texto, frases que ficaram, uma situação. Mas quem escreve escreve sempre sob a sua urgência. Mesmo que, como no meu caso, afirme que o texto não é biográfico, que escreve friamente sobre um tema abstracto. Em todos os géneros, o texto foge, e nós corremos atrás; mas em teatro o texto é também dos actores, tem uma existência exterior não apenas textual, é magnificamente impuro, porque se mistura com as urgências de cada um. Se há uma coisa que o conceito destas Urgências me ensinou é que o teatro é o mais urgente dos textos.

Pedro Mexia

9.10.04

Hopes And Fears


Escrevi a minha peça praticamente toda ao som do mesmo albúm. Não consigo escrever em silêncio, mas tenho sempre a ingenuidade de achar que a banda sonora não está a influenciar o resultado final do texto. Mas agora que o texto já não é um cursor a piscar no ecrã mas sim algo vivo em cima de um palco, há contaminações que me parecem óbvias. Ironicamente, o álbum tem como título "Hopes And Fears". Ironicamente porque esta é a minha primeira peça com uma exposição a sério e por isso todo este processo está povoado de esperanças e medos. Mas se o resultado final correr tão bem como correu aos Keane o seu primeiro disco, acho que posso ficar descansada.

"Bend And Break" - Keane

when you when you forget your name
when old faces all look the same
meet me in the morning when you wake up
meet me in the morning then you'll wake up
if only I don't bend and break
I'll meet you on the other side
I'll meet you in the light
If only I don't suffocate
I'll meet you in the morning when you wake


lovesick bitter and hardened heart
aching waiting for night waiting for life to start
meet me in the morning when you wake up
meet me in the morning then you'll wake up
if only I don't bend and break
I'll meet you on the other side
I'll meet you in the light
If only I don't suffocate
I'll meet you in the morning when you wake

SR

Ctrl + Alt + Delete

Nothing fixes a thing so intensely in the memory as the wish to forget it. - Michel de Montaigne

E se pudéssemos mesmo limpar as nossas memórias? Decidir que já não as queremos usar. Que há coisas que já não nos fazem falta. Se calhar nem nunca fizeram. E se pudéssemos apagar tudo aquilo que nos faz continuar? Abdicar das nossas memórias mais pessoais para podermos abdicar de nós próprios. E ter finalmente paz e sossego. Reiniciar a máquina. Fazer Ctrl + Alt + Delete. "ATENÇÃO: Se premir novamente Crtl+Alt+Delete a sua memória será reiniciada. As informações ainda não guardadas serão perdidas. Pretende continuar?". SR

8.10.04

Aqui e agora

Se o teatro é o que acontece no momento irrepetível – único, em que actor e espectador se encontram num sítio
Se o teatro é o aqui e o agora
Eu sonho e quero a perfeita imperfeição de um teatro do aqui e agora
Um teatro do presente – do presente da tele-realidade, da mediatização, da overdose informativa permanente, das múltiplas imagens, ficções, intangibilidades - um teatro que, no coração da distância, do isolamento e do cocooning, seja o encontro: o reality show real
E que o sítio de onde se vê seja a cidade, os mil palcos da cidade
E que o texto do teatro seja o texto inacabado dos dias, o registo e a partitura do work in progress progredindo sempre
Que não sejam clássicos, repertório, a não ser que os reescrevamos com a mão do nosso tempo
Eu sei que é sempre o sexo, o amor, o poder, a solidão, a morte – mas eu preciso de senti-los como o meu sexo e o teu sexo, o teu amor e o meu amor, o teu poder e o meu poder, a nossa solidão, a tua morte e a minha morte
Como espectador ou como dramaturgo, quero um texto onde pulse o meu tempo no corpo e na voz dos actores que comigo partilham esse tempo e esta inquietação
No teatro acreditando, suspensos na incredulidade de sermos nós próprios
Aqui e agora.
NAS

Sermos apenas nós

Entre cada uma das sete peças curtas que compõem o espectáculo, haverá falsos intervalos. São momentos que servem para separar claramente cada uma das peças. Ontem à noite começámos a trabalhar nesses intervalos. Achamos também que devem ser uma espécie de pano de fundo do projecto, uma revelação de bastidores. Pensámos que, entre cada peça, podíamos mostrar-nos um pouco mais para além da ficção. Revelar o que, de certa forma, nos reuniu a todos: as nossas urgências. O facto de qualquer ser humano ter coisas «urgentes» para dizer, ouvir ou fazer. As coisas que importam para nós, sejam questões metafísicas ou problemas mais corriqueiros. De ontem à noite para hoje, o trabalho de casa era cada actor encontrar pequenas «urgências» pessoais que queira dizer ou fazer em palco. Entre essas urgências também estarão excertos dos textos que vamos recebendo aqui no blogue e que o público irá deixar no teatro, após o espectáculo. Hoje, o objectivo fundamental do ensaio será percebermos como é que podemos, mesmo que durante uns minutos, sermos nós próprios em palco. Não nós dentro da ficção ou nós sobre a ficção. Apenas nós. Vai ser um ensaio difícil.TR

7.10.04

As vossas urgências

Enquanto nada mais me ocorre, e porque nada há de mais urgente e impossível
do que dizer o amor ou, o que é o mesmo, o indizível (poucos poemas
sobreviveriam a tamanha catástrofe!), envio-vos um dos meus primeiros
encontros com a palavra «urgente». Foi escrito por um poeta que hoje diria
provavelmente ao próprio corpo «é urgente morreres».

URGENTEMENTE

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

É urgente ler este poema para vos poder dizer que é urgente as palavras
reecontrarem o seu significado primordial, aquele que nunca ninguém ouviu e
que justificaria uns momentos de silêncio numa peça de teatro.

Uma Urgêcia enviada por Inês Fonseca Santos para urgencias@sapo.pt

6.10.04

Quantas cadeiras são precisas?

A coisa nasceu assim: queremos fazer teatro que fale das nossas vidas com as nossas palavras. Queremos tomar conta do que fazemos e dizemos. Queremos falar do que queremos e não queremos. Queremos escrever o que não pode esperar para mais tarde e só pode ser dito hoje. É verdade. Queremos muita coisa. Mas é disso mesmo que se trata: de termos vontade.
A coisa nasceu assim, à volta de uma mesa com duas cadeiras onde eu e o Nuno Artur Silva nos sentámos. Não demorou quase nada até essa mesa estar rodeada de outras cadeiras. Convidámos um grupo de autores a sentar-se connosco. E lançámos uma pergunta: o que é que tens de urgente para me dizer?
Andámos à volta da mesa a ouvir respostas, depois a lê-las. Arranjámos ainda mais cadeiras para pôr à volta da mesa onde os actores vieram sentar-se. As urgências começaram a ser lidas em voz alta. E juntámo-nos tantos, que a sala onde estava a mesa à volta da qual isto tudo nasceu já era pequena para tanta gente.
O Teatro Maria Matos estava fechado. Depois de algumas voltas, de algumas lutas, da vontade de tanta gente, nossa e de quem tens as chaves do teatro, as portas abriram-se. Começámos por olear as dobradiças das portas. Nos primeiros dias faziam muito barulho. Mas já tínhamos uma casa com espaço para todos.
O que encontrámos no primeiro dia de ensaios foi um teatro despido dos panos, da parafernália técnica, dos pormenores que lhe dão o aspecto de um lugar de ilusões. É precisamente numa casa assim, um teatro nu, que queremos construir este espectáculo feito de urgências. E desejamos que o público deste espectáculo possa ver a carcaça do teatro, aquilo que quase sempre é escondido em nome da ilusão: as cordas, as portas, as varas, os projectores, os fios, os bastidores, a realidade.
Depois olhámos para o calendário e tínhamos apenas um mês para montar um espectáculo. Chama-se “Urgências” e são sete peças curtas. Quatro diálogos e três monólogos com cerca de quinze minutos de duração. Serão, de forma assumida, esboços de peças. Se fossem pintura, seriam gravuras em vez de óleos. Vai estrear a 15 de Outubro e lá estaremos todos, numa sala maior, sentados nas nossas cadeiras à volta das nossas urgências. Só falta saber quantas cadeiras são precisas para vocês, os que nos virão visitar.

5.10.04

Magnolia

Tenho alguns grandes amigos nas Urgências. Um deles, o Tiago, conheci-o como editor do "Zapping", nos idos de 2000. Na segunda série, a equipa criativa do programa decidiu colocar como assinatura de cada episódio o tema "Wise Up" de Aimee Mann - uma canção emblemática de um filme marcante para a nossa geração, to say the least. Eu, o NCS e o TR continuámos amigos e a trabalhar juntos e, de cada vez que - por acaso, como convém - ouvimos essa canção, recordamos inevitavelmente um dos períodos mais fascinantes das nossas vidas, os 6 meses do "Zapping".
Há dias, depois de uma maratona de ensaios, eu e o Tiago fomos beber um copo num café junto ao Maria Matos. "Wise Up" passou na rádio no preciso momento em que discutíamos com entusiasmo os bons pressentimentos que vivemos em relação a este espectáculo. Escutámos em silêncio como se fosse uma oração. E nesse instante tivemos a certeza, sem ser preciso sequer falar do assunto, que as "Urgências" só podem correr bem. Com a enorme ironia dessa convicção nos ter sido transmitida por uma canção tão desencantada e sem esperança.

Uma canção que, por muito que vivamos, estará sempre connosco nos grandes momentos para nos recordar de tudo aquilo que ainda falta fazer. De todas as urgências que permanecem à espera. LFB

Wise Up

It's not what you thought
When you first began it.
You got what you want
Now you can hardly stand it, though,
By now you know, it's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
Till you wise up.

You're sure there's a cure
And you have finally found it.
You think one drink
Will shrink you to your underground
And living down, but it's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
Till you wise up.

Prepare a list for what you need,
Before you sign away the deed,
'Cause it's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
Till you wise up.

No, it's not going to stop,
Till you wise up.
No, it's not going to stop,
So just give up.

Aimee Mann

Fantasmas

Começo por escrever que isto de ‘blog’ é uma absoluta novidade para mim. Aliás, o ‘blog’ das Urgências foi o primeiro que visitei. Motivo: sempre considerei que grande parte da informação colocada nestas paragens ‘virtuais’ é de uma pobreza que faz dó, ou lixo, se quiserem. (Constatei isso depois de visitar alguns…)


Quanto às Urgências, cá vai…


Nos nossos dias não existe espaço para a reflexão - somos a sociedade da informação - vive-se tudo de uma forma muito rápida, não temos tempo a perder. Tempo a perder?

Temos sim, tempo a recuperar: para nós, para a reflexão, a compreensão, o calor humano, as conversas de café, o livro esquecido na prateleira, o carinho...


Urgências fala, parece-me, sobre estas personagens que procuram o calor, o carinho e a compreensão num urbanismo envolto de pessoas que tentam a todo o custo sobreviver, onde não há espaço para a reflexão, para o pensamento.

É obrigatório agir, só existe espaço para agir. Para irmos com a corrente, com a cidade.

As vozes que vamos conhecendo, por aqui, partilham um enorme sofrimento, um certo autismo para com todos os elementos exteriores, onde a integração no tecido da cidade é difícil, a sua manutenção insuportável. Isto tudo, obviamente, afecta infernalmente as relações entre as pessoas.

É esta a Urgência… libertarmo-nos do tecido envolvente para conseguirmos respirar.


Felizmente nestas pequenas Urgências, quase diárias, existe o carinho de, juntos, irmos para a sala de ensaio, para o teatro, e trabalhar, ler, reler, “repetir”. No fim de 3, 4, 5 horas de ensaio o espaço, só, abre-se para o silêncio. Mas, se estivermos com atenção, as palavras ainda ecoam, aqui e ali. Consegue-se ouvir, sentir. Para mim, este momento é um dos momentos mágicos que o teatro tem, que não se explicam.

Aliás, sempre acreditei que existem fantasmas nos Teatros, pelo menos naqueles que aguentam e se ressentem com o peso da história. Esta semana, conheci os do Maria Matos: são três. E são divertidíssimos. Estão no Balcão, na primeira fila. Encontrei-os quando me esqueci de alguns objectos, com o calor de uma conversa a caminho do jantar. Para falar verdade, eram amuletos. Voltei, já sozinho. E quando me encaminho para a saída lateral do palco, lá estavam eles, divertidos. Talvez por terem companhia, não sei… Senti-me satisfeito. Já encontrei agentes do outro mundo com um semblante carregado. Em alguns teatros abandonados, em que tive a oportunidade de ensaiar, trabalhar. A relação parece-me óbvia.

(…)

Não vou concluir este texto, primeiro porque não tenho jeito para esse último parágrafo, e depois porque temo que pudesse sair qualquer coisa melodramática. E isso é uma coisa que eu seriamente evito.


Até breve.

O fantasma Luís Mestre

3.10.04

deslizes 1 e 2

(deslizes: esboços de qualquer coisa na primeira pessoa, derivados de ‘Azul a Cores’, a minha Urgência para a Cláudia Jardim e o Tiago Rodrigues.)

deslize 1: oco
Só falávamos da sala, de como íamos mudar os móveis de lugar, o sofá fica melhor naquele canto, e o candeeiro?, a estante se calhar tem mesmo de ficar aqui. Um dia saí mais cedo do trabalho e fiz-te a surpresa, chegaste e a sala pareceu melhor assim. Sentei-me no sofá, tu no canto onde o sofá costumava estar, e pediste-me por favor, volta a pôr tudo como estava, sabias que, arrumada a sala, já não tinhamos do que falar.

deslize 2: par
Não me dava bem com químicos, por isso metia os dedos nas fichas de electricidade, um ou dois esticões e o dia passava-se. Para voltar a bater, o coração tinha de parar, era a melhor parte, o glóbulo vermelho à espera que o da frente avançasse, para poder ir à sua vida. E nada.
Os ouvidos recebiam a bomba primeiro. Estalavam, apitavam, e a coisa alastrava para a cabeça, vibrante, ansiosa, feliz por estar de volta. Queria partir tudo, tal era a minha alegria, mas como perdia a força nas pernas, e caía, nunca passei vergonhas.
Com o tempo perdeu a graça. Precisava de alguém para descarregar, como as nuvens descarregam electricidade no chão e depois choram. Tive sorte porque fui à Fnac. Na zona dos DVD’s reparei em ti, a estudar uma edição especial da colecção “Catástrofes Naturais” dedicada às tempestades eléctricas. Tinhas as pontas dos dedos escuras, indicador e médio queimados, a marca da nossa sociedade secreta. Fomos para a caixa, pagaste, ofereci-me para levar o saco, e quando sem querer te toquei na mão levei um choque. Tu riste muito.
Estava um dia lindo, nuvens carregadas, de certeza que ia chover, e fomos correr para a praia. Pendurámos as chaves de casa à cintura, como o Benjamin Franklin fez ao papagaio, e fizemo-nos ao jogging com a esperança de ter o choque de uma vida. FHF

Heavy words are so lightly thrown

As pessoas discutem. Os casais discutem. E a agressão não tem Convenção de Genebra.

Numa canção dos Smiths surge uma frase, ocultamente citada no texto, que diz isso:


«What Difference Does It Make?»

All men have secrets and here is mine
So let it be known
For we have been through hell and high tide
I think I can rely on you
And yet you start to recoil
Heavy words are so lightly thrown
But still I'd leap in front of a flying bullet for you

So, what difference does it make?
So, what difference does it make?
It makes none
But now you have gone
And you must be looking very old tonight

The devil will find work for idle hands to do
I stole and I lied, and why?
Because you asked me to
But now you make me feel so ashamed
Because I've only got two hands
Well, I'm still fond of you

So, what difference does it make?
What difference does it make?
It makes none
But now you have gone
And your prejudice won't keep you warm tonight

The devil will find work for idle hands to d
I stole, and then I lied
Just because you asked me to
But now you know the truth about me
You won't see me anymore
Well, I'm still fond of you

But no more apologies
No more, no more apologies
I'm too tired
I'm so sick and tired
And I'm feeling very sick and ill today
But I'm still fond of you.

(Morrissey / Marr, álbum The Smiths, 1984)


São estes os materiais de «Genebra». Uma frase. Um tratado internacional. Uma canção. PM

Genebra

Segunda ideia: a Convenção de Genebra. Mesmo na guerra existem regras. Zonas proibidas. Uma decência mínima, para a violência desenfreada.

Mesmo que apenas em proclamação, temos um documento que diz isso: a Convenção de Genebra, sobre o tratamento de civis, de refugiados, de prisioneiros de guerra. Não é cumprido? Muitas vezes não. Mas existe. Já é alguma coisa.

E na guerra quotidiana? Que Convenção de Genebra regula a nossa agressividade? Quando um casal discute, que regras impedem uma discussão de degenerar em guerra total?

Estamos mais desprotegidos entre nós, no meio da nossa paz, do que na guerra? PM

Atropelar

Uma ideia ou duas ideias. Primeiro, a situação, uma frase que ouvi não sei a quem: «Um ex-namorado é alguém que queremos atropelar».

Quem disse isto? Não sei. Qual a razão pela qual me lembro disto, eu que não me lembro de nada? Não sei. Nunca quis atropelar ninguém. Nem sequer conduzo, e mesmo que conduzisse. Nunca me apeteceu atropelar uma «ex-namorada» (a frase vale para ambos os géneros). Não sei sequer se tenho ou tive «ex-namoradas». Se alguma vez fui «ex-namorado». Estas coisas terão certamente um critério científico, que defina o que é um «namoro», para que depois se designem apropriadamente as partes cessantes. Mas admitamos que fui «ex-namorado», que tive «ex-namoradas», que brutalidade é essa de atropelamento? Sou um adepto de separações pacíficas, creio que o tenho conseguido, enfim, faço o possível. Não sou nada dado a detestações maníacas. A frase não tem nada a ver comigo.

É uma observação. Então assentamos nisto. É sobre os outros. E os outros dizem e sentem coisas assim. Não eu. Estou mais confortado.

Ou então «atropelar» não é atropelar. A peça não é certamente sobre desastres de automóvel. É sobre o quê, então? PM

Urgências

Fui convidado para este projecto: «Urgências». E a primeira coisa que me ocorreu foi que tinha um conto passado nas urgências de um hospital. Um conto, não: um vaguíssimo plano para um conto. Que nunca se tinha concretizado. Demasiado diálogo, nenhuma acção. Estava na gaveta, talvez nunca saísse da gaveta. Mas agora, de repente, era a resposta a um convite. Uma resposta deliciosamente literal. «A minha urgência é fazer um conto que se passa nas urgências». Um conto? Uma peça, diz-se uma peça. Meio termo: um «texto para teatro».

Assim ficou. Mas uma ideia nunca é urgente. Que urgência havia nesse texto? Nesse texto que nem texto era ainda? Que urgência intrínseca, para além da vontade de se fazer texto? Qual era a urgência num texto tão urgente que ficara esquecido na gaveta? Que nem texto era porque nunca fora escrito?

O texto da minha urgência é sobre a minha urgência? Desde que o apresentei, dei comigo a dizer a toda a gente que o texto «não é autobiográfico». E não é. Mas se não é, qual a necessidade urgente de o dizer? Medo que pensem que é? E medo porquê? De quê? Sobre que urgência é o meu texto para me suscitar tal cautela? Já o sei ou só saberei, como os outros, na estreia?

A minha Urgência chama-se «Genebra». PM

2.10.04

As vossas urgências

Tenho urgência em dizer da força com que amo o meu pai. Tenho urgência emdar-lhe os parabéns pelos seus 63 anos. Tenho urgência em contar da minhaadmiração por ele. Tenho urgência em agradecer eternamente tudo o que meensinou. Tenho urgência em lembrar as suas mãos, a poesia que fez nascer ecrescer em mim (e como ma soube dizer ao ouvido ), a prosa que me gritou bemalto ou as canções com que ilumina toda a casa. Tenho urgência em evocar aterra onde nasceste, a neve que te congelava os dedos ou o rio onde quasemorreste. E ser eu, hoje, é lembrar, com urgência, tudo o que foste e quecontinuas a ser para mim.

Uma Urgência enviada por Sílvia para urgencias@sapo.pt

As vossas urgências

Tenho uma urgência! Urge dizer que temos de parar e olhar para o que nosrodeia. E o que nos rodeia é uma televisão em que 99,9% da programaçãodevia ser urgentemente modificada. Esperem, mas se essa mesma programação temaudiência, temos isso sim de modificar urgentemente a audiência. A audiêncianão pode mais ver pseudo-celebridades, pseudo-apresentadores, pseudo-programasde humor... Temos de acordar a audiência deste pesadelo alcoólico em quevive, despertar-lhes a consciência e arrancá-los do fundo da caverna em quealegoricamente vivem. É mesmo uma urgência! Antes que seja tarde de mais eainda aconteça algo de muito grave como o nosso mundo deixar de ter um rumo...Opsss! Será que ainda vamos a tempo ou os sons cardíacos já se desvaneceram?

Uma Urgência enviada por João Pedro Lopes para urgencias@sapo.pt

1.10.04

É urgente o amor

Uma das questões levantadas logo no início das conversas com os autores que integram as Urgências, foi a dos temas das peças. Sabendo que o mote de todos os textos era a pergunta "o que é que tens de urgente para me dizer?", era preciso decidir se devia ou não chegar-se a uma distribuição de temas e situações diferentes para cada autor. A coclusão a que chegámos foi a de assumir a completa liberdade criativa de quem aceitou o desafio de responder à pergunta que lançámos. Esperávamos que a actualidade e as temáticas sociais fossem o denominador comum de muitas das peças. No entanto, é curioso reparar que quatro das sete peças abordam, na sua essência, o amor e as relações românticas. Devíamos ter percebido isto antes. O que é urgente nem sempre tem que ser deste tempo. Há urgências com milénios.TR